20/04/13

O Estado das Artes


Perdoar-me-ão a conjugação pronominal reflexa nestes tempos dados à simplificação, mas dever-se-ia dizer em geral da cultura aquilo que Natália Correia disse da poesia: que era para comer. 
Em Portugal, a cultura sempre andou associada a uma certa pomposidade e snobismo e, por natural arrasto, ao seu inverso, o popularucho bimba, a cultura popular arrasada nos anos do cavaquismo, instrumentalizada que fora pelo antigo regime, promotor do pobrezinho mas honesto: por detrás das sete saias da Nazaré muita miséria se escondia. 
Acabamos de atingir um novo patamar. Após 11 anos regidos por um engenheiro que começou por assinar projectos de pato-bravo no Portugal profundo para acabar a comprar roupa por medida no 420, Rodeo Drive, e governados hoje por um homem que, nas sábias palavras de António Lobo Antunes, evidencia quão curiosos são os caminhos do Senhor – “Deus serviu-se de Filipe La Féria para termos este primeiro-ministro. Deus teve de escolher entre duas desgraças. E preferiu que ele fosse primeiro-ministro a cantor” –, estranho seria se não andássemos baralhados. 
É assim que dizemos bye bye a Paula Rego enquanto acolhemos com veneranda deferência Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda, ou assistimos mudos e quedos ao assassínio d’ Os Lusíadas por José Luís Peixoto. 
Não me interpretem mal. Eu sei que à luz da ciência moderna, provar que um verso de Camões vale mais do que 500 frases de Peixoto é tarefa inglória. Tão inglória como provar que o truque dos tamanhos XL da Joana Vasconcelos não passa disso mesmo: de um truque. 
Mas isto: “Tágides do Tejo, ninfas de ninfetice total… emprestem-me ainda um resto do vosso ninfetismo…”?! 
Por muito menos escreveu Almada o “Manifesto anti-Dantas e por extenso”.

6 comentários:

Anónimo disse...

Finalmente, alguém disponível a quebrar essa estranho caso de Joana Vasconcelos.

Um hype que perdura e perdura e perdura...

Pedro

Beatrix Kiddo disse...

Gostei de ler

até todas as formas iluminarem os pés disse...

Eu também me passo com certas cenas do Peixoro. E não só.

(está tudo bem escrito)

m.a.g. disse...

PIM!

André disse...

Estranhamente - ou não - penso que José Luís Peixoto e Joana Vasconcelos (entre outros) estão muito bem para o tempo que tristemente nos calhou viver... http://thoughloversbelostloveshallnot.blogspot.com/2013/04/jose-luis-peixoto-um-escritor.html

samartaime disse...

Eu sempre achei que aquela mania de furar as orelhas acabaria a esburacar o funcionamento - já de si tão débil - do bestunto.
E logo havia de embicar no avio popular do Camões!

Aquilo são peixotices, não ligue.